quarta-feira, 27 de maio de 2015

O que é o Câncer no SUS




Fotos de uma postagem no Facebook, de uma filha que acompanha sua mãe na luta contra o Câncer em um hospital do SUS...

Agora eu abri o face e a primeira postagem que apareceu foi essa. Em certo ponto da leitura, a moça diz que "o câncer de sua mãe tem aliados fortes"... e como eu entendo!!! A maioria das pessoas graças a Deus não sabem o que é viver a realidade do câncer na rede pública de saúde, sem generalizar, mas sendo realista, eu diria que pouquíssimos hospitais saem das estatísticas. Eu prometi a mim mesma jamais relembrar ou registrar novamente o que meus pais passaram, mas para quem viveu ou vive a mesma realidade, sei que minhas palavras são desnecessárias e para quem nunca viveu também, porque só sentindo na pele para compreender o quanto nosso mundo se perdeu no que se diz respeito a dignidade e direitos das pessoas. Independente de ser avançado ou não, de ter possibilidade de cura ou não, eu acho que as pessoas merecem ter atendimento digno, respeitoso, ainda que paliativo. Existe um processo silencioso de seleção nos hospitais, uma peneira que tira dos que menos apresentam possibilidade de cura o direito de lutar, a pessoa e a família se vê então sem caminho, sem possibilidades, sem direitos e sem ter pra onde correr... é sem sombra de dúvida a pior sensação que podemos ter na vida, a sensação de impotência, de não conseguir dar alívio a quem se ama, de ver seus direitos negados, de não encontrar ninguém disposto a fazer algo nem que seja apenas para tirar a dor, nem que seja apenas para proporcionar o mínimo de conforto e dignidade. Esse cenário pode parecer exagerado, essas fotos podem parecer irreais, mas Deus sabe o quanto isso é rotineiro, o quanto isso é comum e o quanto famílias são devastadas pelo desespero todos os dias, o tempo todo... e nada muda... Mães e pais, filhos, maridos e esposas percorrem os corredores, as enfermarias, as recepções, em busca de ajuda... as pessoas se consolam e se ajudam, compartilham o desespero e por fim se entregam em alguma cadeira, em algum canto, em algum pedaço de chão qualquer... papéis nas mãos, consultas que nunca chegam, exames que nunca são feitos, meses para uma quimioterapia, cirurgias negadas... e o desespero de quem tem que voltar para o leito de um familiar querido sem um médico, sem uma enfermeira, sem nada a oferecer... No corredor nós trocávamos comprimidos de morfina que alguns enfermeiros davam escondidos, na recepção conversávamos e depois ficávamos simplesmente em silencio enquanto o sol chegava e partia e continuávamos esperando próximo ao carro de algum médico... Alguns ouviam e lamentavam, outros olhavam tão comovidos quanto nós mas aparentemente impossibilitados de fazer algo... Algumas enfermeiras ajudavam, outras não, algumas chegavam a partilhar de nossa dor... Quantos anjos conheci, quanta ajuda silenciosa, escondida, olhares, gestos de amor que auxiliam os que quase se perdem... Mas em todos o mesmo sentimento, a mesma revolta engasgada e presa na garganta, o mesmo aperto no peito, as mãos amarradas na indiferença de um sistema tão cruel, tão desumano... Viver essa doença não é fácil pra ninguém, passar por essa tempestade não é tarefa que ninguém realize com satisfação, mas há sim uma diferença gigantesca na maneira como as pessoas sobrevivem a isso tudo e por mais que eu tente não consigo deixar de me revoltar com isso. Meus pais não sobreviveram a essa realidade, eu sobrevivi... eu e tantos outros que enterram seus entes queridos e que deixam com eles um pedaço de sua esperança em um mundo melhor, mas que sobrevivem sem se perderem na dor e na revolta... Hoje, pra mim, essa realidade é passado, depois de 2 anos já aprendi a guardar isso sem rancor, sem ódio, sem revolta... mas me dói o coração saber que nesse exato momento tantos sofrem a mesma dor, tantos passam pelo mesmo desespero. Pais, mães, filhos, maridos, seres humanos abandonados totalmente em seus direitos, perdidos, devastados, sem força, sem voz, sem esperança... Até quando... até quando seremos divididos pela quantidade de dinheiro que possuímos... O mundo se tornou um lugar estranho, é cada um por si e Deus por todos... E eu fico me perguntando até quando... até quando as pessoas vão fechar os olhos, vão continuar suas vidas indiferentes a isso tudo... Nos hospitais, nas escolas, no dia a dia, o sofrimento, o abandono, o desespero... Tudo tão desigual, tão absurdo, tão sem sentido... E eu olho para essas fotos e vejo essas pessoas e um gosto amargo volta na minha boca... e por mais que eu negue, não posso deixar de admitir que uma parte de mim ainda é sustentada por esse sentimento de revolta, essa vontade de gritar. Mas é o mundo, é assim, é a vida, e nós continuamos, calados, olhando de longe, fazendo de conta que não é com a gente.

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