quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Quem roubou nossa coragem...

Nascemos repletos de esperança, cheios de sonhos e dispostos a mudar o mundo, a fazer a diferença... nascemos e permanecemos assim por algum tempo, onde tudo parece possível, onde todos são amigos, onde o mundo parece um lugar perfeito... não há limites para os anseios de um coração jovem, não há nada que possa mudar aquele desejo intenso de ser tudo aquilo que queremos ser... E daí vem a vida, o tempo sempre implacável, as tristezas, as grandes desilusões, a realidade dura que bate na porta... vai chegando vagarosamente todo o medo, insegurança, aquela sensação de mãos atadas, de nó na garganta... E nós vamos silenciando o coração, aquietando a mente, escondendo os sonhos em baixo do tapete, desistindo, renunciando, abrindo mão... Fica aquela lembrança boa de tempos de coragem, do peso que era leve, da liberdade, da inocência de acreditar que tudo era possível, de que podíamos tudo que desejássemos... O coração endurece um pouco, já não se chora com qualquer poema, aquelas músicas que eram hinos não tocam mais, aquele escritor querido e admirado agora parece apenas mais um sonhador... O coração fica cansado, fica com medo, fica pequeno dentro do peito e vamos percebendo aos poucos que já não há tempo para tantas coisas... As pessoas foram se perdendo no caminho, os inseparáveis se separaram... alguns para sempre... outros dão notícias de longe como se fossem outras pessoas que nem ao menos nos conhecem mais... E nós continuamos com o sorriso no rosto, o brilho nos olhos, cantando velhas canções, recitando frases de filmes e vivendo no pedacinho de vida que conseguimos manter viva dentro de nós... aquele pedacinho pequeno onde tudo ainda é possível, onde ainda somos revolucionários, onde ainda pintamos o rosto, onde ainda fazíamos tudo por amor... naquele pedacinho de vida onde o mundo nos pertencia, naquele pequeno pedaço de vida onde realmente vivíamos nossos sonhos... Continuamos vivos naquela viagem com os amigos, naquela aula da facu, naquele por do sol, naquele primeiro beijo, naquele olhar, naquela declaração de amor, naquele que era para ser pra sempre, no cabelo molhado, na roupa colorida, naquela lua... E todos meus cds do Legião se perderam, nem acho as músicas do Ira pra baixar na net... fica só minha própria vós teimosa cantarolando solitária... "Até bem pouco tempo atrás,Poderíamos mudar o mundo,Quem roubou nossa coragem?Tudo é dor,E toda dor vem do desejo,De não sentirmos dor..." Sinto saudade de mim, saudade de uma doçura que existia, de uma certeza profunda de que tudo daria certo sempre... sinto saudade da sala da minha amiga, das conversas e risadas sem fim, de ouvir Alanis, Kid Abelha, Legião Urbana o dia todo... sinto saudade de minha coragem de largar tudo por amor, sinto saudade daquela sensação desconhecida no estômago, de fazer loucuras, de sumir no mundo... Sinto saudade das broncas da minha mãe quando eu chegava de madrugada, dos domingos no apartamento só nós duas comendo doce, falando bobagens, do meu pai chegando com uma cerveja e em LP novo... Eu olho em volta agora e sou profundamente grata pelo que tenho, minha família, meu lar, minhas filhas, meu filho indefeso e tão dependente de mim... Mas mesmo em minha gratidão mora um pedacinho de saudade, mesmo nessa vida tão preciosa pra mim permanece um tantinho de tristeza por tudo que perdi de mim mesma no decorrer do caminho... Hoje acordei assim, meio sei lá, um pouco cansada talvez, um gostinho amargo na boca, um peso nas costas... Talvez seja só essa sensação de estar sozinha tão permanente ultimamente, talvez esteja engolindo palavras demais, talvez esteja apenas fingindo... Não sei o que queria escrever hoje... nem sei mais quem sou... hoje queria sentar sozinha na areia, olhar o mar por um longo tempo, sentir o vento no rosto... Hoje queria um abraço, um ombro, alguém que me dissesse que tudo vai dar certo... um elogio sincero, um beijo apaixonado, andar de mãos dadas, hoje queria um monte de coisas e ao mesmo tempo nada... Encontrar meu lugar no mundo, me mudar com um grupo de voluntários para um país distante, fugir com o circo, me formar em filosofia... desenhar um círculo místico no chão, abraçar uma árvore... dormir até duas da tarde... ser criança no colo da minha mãe...

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